Janeiro Branco: profissionais alertam para crescimento de casos da Síndrome de Burnout

Publicado em 5 de janeiro de 2023

O mês de janeiro de 2023 marca um ano da inclusão da Síndrome de Burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS). A síndrome, chegou a afetar 32% da população brasileira economicamente ativa, de acordo com pesquisa realizada em 2019 pela International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR), divulgada pela Agência Fiocruz. Na campanha Janeiro Branco, este ano com o lema “A vida pede equilíbrio”, profissionais e organizações sociais chamam atenção para a necessidade do cuidado e da construção de uma cultura que preserve a Saúde Mental. 

A Síndrome de Burnout, descrita pela OMS como doença ocupacional “resultante de um estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com êxito”, é caracterizada por um esgotamento mental e físico. O indivíduos sente-se ineficaz e improdutivo e, via de regra, vivencia situações de estresse extremo no ambiente de trabalho. 

Para Beatriz Madruga, preceptora psicóloga do Instituto Santos Dumont (ISD), os fatores que ocasionam o surgimento da síndrome são: trabalhos com excesso e grande variedade de demandas; violências laborais, como agressões físicas, verbais ou assédio e trajetórias ocupacionais pouco valorizadas e/ou com baixa remuneração. Apesar disso, a condição surge em um cenário mais complexo, não limitado por uma lista única de motivos. 

“Na atualidade, a vivência do estresse é extremamente normalizada. Estar estressado, ansioso, sempre com pressa e sempre com muito trabalho é naturalizado e valorizado pela nossa sociedade, e isso é extremamente adoecedor”, pontua Beatriz. 

Os dados da pesquisa feita pela ISMA-BR são alarmantes, mas ainda assim foram analisados antes de um período crucial para o estudo do adoecimento mental e estresse da população mundial: a pandemia de Covid-19. 

De acordo com a análise da Agência Fiocruz, os números podem ter crescido durante a pandemia, que trouxe uma série de consequências ao cenário socioeconômico e do sistemas de saúde no mundo inteiro. Em 2020, segundo a OMS, os casos de depressão e ansiedade, possíveis consequências do Burnout, aumentaram mais de 25% em todo o mundo. 

Em pesquisa realizada no primeiro ano da pandemia pela PEBMED, startup que produz conteúdo para médicos, 78% dos profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros e técnicos, tiveram sinais da Síndrome de Burnout. Entre os médicos que estiveram na linha de frente do combate ao Covid-19, a prevalência foi ainda maior, atingindo 83%.

Os níveis de estresse Burnout foram estudados, principalmente, entre os profissionais da saúde em virtude da proximidade do grupo dos casos de adoecimento e óbitos por Covid-19, mas outros profissionais também são afetados. Para Beatriz Madruga, a pandemia “tornou os profissionais mais resilientes e mais vulneráveis na mesma medida”, por isso o Burnout está presente, hoje, com maior frequência nas mais diversas categorias de trabalho. 

 

O Burnout dentro de casa

Durante a pandemia e como resultado do isolamento social, uma das práticas mais adotadas no mundo foi o home office, ou trabalho remoto. Para a psicóloga Beatriz Madruga, essa prática indica uma sobrecarga, por criar o ato de “trabalhar” fora e dentro de casa – algo que pode ter intensificado situações de desgaste e estresse dentro dos lares, ao unir uma rotina doméstica com o emprego. 

“O dia a dia doméstico é, assim como nossa profissão, um trabalho. Não remunerado, necessário, imprescindível, mas é trabalho da mesma forma. Então, se eu vivencio, no meu trabalho, o excesso de demandas, o estresse crônico, o sentimento de ineficácia e, ao chegar em casa, tenho novamente a mesma experiência, eu vivencio o mesmo ecossistema do trabalho dentro da minha casa. São dois ambientes laborais adoecedores para vivenciar diariamente”, explica a psicóloga.

Neste cenário, a profissional chama atenção também para a situação das mulheres trabalhadoras, reforçando que dentro de uma mesma categoria profissional “há a presença de um adoecimento mental maior dentre as mulheres, quando comparado ao adoecimento masculino”. Um fator que pode estar por trás disso é a sobrecarga de trabalho doméstico. 

A repercussão da pandemia na saúde mental das mulheres, especialmente dentro desse cenário de aglutinação da vida pessoal e profissional, foi investigada pelo Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) na pesquisa “Cenários da Covid-19”, que ouviu mais de 5 mil pessoas. Durante o distanciamento social, 24% das mulheres entrevistadas apresentaram, após o início da pandemia e isolamento social, sintomas de depressão, 20% enfrentaram ansiedade e 17% alegaram estresse.

“Precisamos olhar para o trabalho doméstico com esse substantivo bem destacado. É trabalho. E portanto exige, comove, adoece. A divisão de tarefas precisa acontecer, bem como a atenção ao tamanho da exigência que fazemos em relação a esse ambiente estar sempre limpo e organizado. O que é possível dentro da quantidade de demandas que temos? É uma questão importante a se fazer. O que é possível fazer sem chegar a um desgaste e a uma exaustão? São questões que servem para o nosso trabalho não doméstico e para o nosso trabalho doméstico também”, finaliza a profissional. 

Estratégias de cuidado

Assim como outras doenças ligadas à saúde mental, o estresse crônico e Burnout estabelecem a necessidade de adotar cuidados específicos na busca de diminuir ou evitar situações que possam causar ou agravar esses casos. 

Um dos primeiros passos, para a psicóloga Beatriz Madruga, é a atenção individual para a relação do trabalhador com o trabalho. “Avaliar qual seu nível de exigência consigo mesmo, e qual seu nível de satisfação e insatisfação; como estão os relacionamentos interpessoais nesse ambiente; como você se sente no início da semana, prestes a começar uma nova jornada, e como você se sente no final da semana, quando finaliza. Trabalhar a consciência para esses fatores é um ponto importante”, explica. 

Outro passo é analisar os fatores da pressa, do estresse e do trabalho excessivo e o quanto eles estão sendo valorizados no dia a dia, buscando identificar, segundo Beatriz, uma “característica de alerta” nestes pontos, e então, ao longo dos dias, valorizar o tempo de descanso, de lazer e dedicação a outras atividades e de convívio com a família, o (a) parceiro (a), e os amigos.

A busca pelo acompanhamento psicológico é também, para a preceptora, uma das estratégias de cuidado mais essenciais. 

“Como profissional da saúde mental, vejo que em linhas gerais esse cuidado está se fazendo mais presente, em diferentes categorias profissionais e idades. No entanto, acho que ainda estamos engatinhando nesse aspecto. Ainda vejo pessoas resistentes ao espaço de cuidado, por normalizarem o cansaço e o estresse, e por minimizarem seus impactos. Ainda cabe mais campanha para conscientização da importância da saúde mental, do que é saúde mental, e de como ela está atrelada ao trabalho da gente”, reflete a psicóloga. 

Texto: Naomi Lamarck / Ascom – ISD

Foto: Ascom – ISD

Assessoria de Comunicação
comunicacao@isd.org.br
(84) 99416-1880

Instituto Santos Dumont (ISD)

É uma Organização Social vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e engloba o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, ambos em Macaíba. A missão do ISD é promover educação para a vida, formando cidadãos por meio de ações integradas de ensino, pesquisa e extensão, além de contribuir para a transformação mais justa e humana da realidade social brasileira.

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A Síndrome de Burnout, descrita pela OMS como doença ocupacional “resultante de um estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com êxito”, é caracterizada por um esgotamento mental e físico. O indivíduos sente-se ineficaz e improdutivo e, via de regra, vivencia situações de estresse extremo no ambiente de trabalho. 

Para Beatriz Madruga, preceptora psicóloga do Instituto Santos Dumont (ISD), os fatores que ocasionam o surgimento da síndrome são: trabalhos com excesso e grande variedade de demandas; violências laborais, como agressões físicas, verbais ou assédio e trajetórias ocupacionais pouco valorizadas e/ou com baixa remuneração. Apesar disso, a condição surge em um cenário mais complexo, não limitado por uma lista única de motivos. 

“Na atualidade, a vivência do estresse é extremamente normalizada. Estar estressado, ansioso, sempre com pressa e sempre com muito trabalho é naturalizado e valorizado pela nossa sociedade, e isso é extremamente adoecedor”, pontua Beatriz. 

Os dados da pesquisa feita pela ISMA-BR são alarmantes, mas ainda assim foram analisados antes de um período crucial para o estudo do adoecimento mental e estresse da população mundial: a pandemia de Covid-19. 

De acordo com a análise da Agência Fiocruz, os números podem ter crescido durante a pandemia, que trouxe uma série de consequências ao cenário socioeconômico e do sistemas de saúde no mundo inteiro. Em 2020, segundo a OMS, os casos de depressão e ansiedade, possíveis consequências do Burnout, aumentaram mais de 25% em todo o mundo. 

Em pesquisa realizada no primeiro ano da pandemia pela PEBMED, startup que produz conteúdo para médicos, 78% dos profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros e técnicos, tiveram sinais da Síndrome de Burnout. Entre os médicos que estiveram na linha de frente do combate ao Covid-19, a prevalência foi ainda maior, atingindo 83%.

Os níveis de estresse Burnout foram estudados, principalmente, entre os profissionais da saúde em virtude da proximidade do grupo dos casos de adoecimento e óbitos por Covid-19, mas outros profissionais também são afetados. Para Beatriz Madruga, a pandemia “tornou os profissionais mais resilientes e mais vulneráveis na mesma medida”, por isso o Burnout está presente, hoje, com maior frequência nas mais diversas categorias de trabalho. 

 

O Burnout dentro de casa

Durante a pandemia e como resultado do isolamento social, uma das práticas mais adotadas no mundo foi o home office, ou trabalho remoto. Para a psicóloga Beatriz Madruga, essa prática indica uma sobrecarga, por criar o ato de “trabalhar” fora e dentro de casa – algo que pode ter intensificado situações de desgaste e estresse dentro dos lares, ao unir uma rotina doméstica com o emprego. 

“O dia a dia doméstico é, assim como nossa profissão, um trabalho. Não remunerado, necessário, imprescindível, mas é trabalho da mesma forma. Então, se eu vivencio, no meu trabalho, o excesso de demandas, o estresse crônico, o sentimento de ineficácia e, ao chegar em casa, tenho novamente a mesma experiência, eu vivencio o mesmo ecossistema do trabalho dentro da minha casa. São dois ambientes laborais adoecedores para vivenciar diariamente”, explica a psicóloga.

Neste cenário, a profissional chama atenção também para a situação das mulheres trabalhadoras, reforçando que dentro de uma mesma categoria profissional “há a presença de um adoecimento mental maior dentre as mulheres, quando comparado ao adoecimento masculino”. Um fator que pode estar por trás disso é a sobrecarga de trabalho doméstico. 

A repercussão da pandemia na saúde mental das mulheres, especialmente dentro desse cenário de aglutinação da vida pessoal e profissional, foi investigada pelo Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) na pesquisa “Cenários da Covid-19”, que ouviu mais de 5 mil pessoas. Durante o distanciamento social, 24% das mulheres entrevistadas apresentaram, após o início da pandemia e isolamento social, sintomas de depressão, 20% enfrentaram ansiedade e 17% alegaram estresse.

“Precisamos olhar para o trabalho doméstico com esse substantivo bem destacado. É trabalho. E portanto exige, comove, adoece. A divisão de tarefas precisa acontecer, bem como a atenção ao tamanho da exigência que fazemos em relação a esse ambiente estar sempre limpo e organizado. O que é possível dentro da quantidade de demandas que temos? É uma questão importante a se fazer. O que é possível fazer sem chegar a um desgaste e a uma exaustão? São questões que servem para o nosso trabalho não doméstico e para o nosso trabalho doméstico também”, finaliza a profissional. 

Estratégias de cuidado

Assim como outras doenças ligadas à saúde mental, o estresse crônico e Burnout estabelecem a necessidade de adotar cuidados específicos na busca de diminuir ou evitar situações que possam causar ou agravar esses casos. 

Um dos primeiros passos, para a psicóloga Beatriz Madruga, é a atenção individual para a relação do trabalhador com o trabalho. “Avaliar qual seu nível de exigência consigo mesmo, e qual seu nível de satisfação e insatisfação; como estão os relacionamentos interpessoais nesse ambiente; como você se sente no início da semana, prestes a começar uma nova jornada, e como você se sente no final da semana, quando finaliza. Trabalhar a consciência para esses fatores é um ponto importante”, explica. 

Outro passo é analisar os fatores da pressa, do estresse e do trabalho excessivo e o quanto eles estão sendo valorizados no dia a dia, buscando identificar, segundo Beatriz, uma “característica de alerta” nestes pontos, e então, ao longo dos dias, valorizar o tempo de descanso, de lazer e dedicação a outras atividades e de convívio com a família, o (a) parceiro (a), e os amigos.

A busca pelo acompanhamento psicológico é também, para a preceptora, uma das estratégias de cuidado mais essenciais. 

“Como profissional da saúde mental, vejo que em linhas gerais esse cuidado está se fazendo mais presente, em diferentes categorias profissionais e idades. No entanto, acho que ainda estamos engatinhando nesse aspecto. Ainda vejo pessoas resistentes ao espaço de cuidado, por normalizarem o cansaço e o estresse, e por minimizarem seus impactos. Ainda cabe mais campanha para conscientização da importância da saúde mental, do que é saúde mental, e de como ela está atrelada ao trabalho da gente”, reflete a psicóloga. 

Texto: Naomi Lamarck / Ascom – ISD

Foto: Ascom – ISD

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Instituto Santos Dumont (ISD)

É uma Organização Social vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e engloba o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, ambos em Macaíba. A missão do ISD é promover educação para a vida, formando cidadãos por meio de ações integradas de ensino, pesquisa e extensão, além de contribuir para a transformação mais justa e humana da realidade social brasileira.

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